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Morador de Bangu, na Zona Oeste do Rio, conta como é viver na linha de tiro do confronto entre traficantes da região

RIO – A guerra continua. Bangu é um grande bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. É um vale cercado por grandes morros. Parte deles, desabitados. É cortado pela Avenida Brasil, via expressa de grande circulação de veículos. É praticamente a única ligação dos outros bairros com o centro da cidade. Há um morro que fica a dois quilômetros da minha casa, que divide dois sub-bairros, Vila Aliança e Vila Kennedy.

Esse morro é grandioso e cerca de 80% dele é de mata. Há anos, ele serve de campo de conflito entre facções rivais dos sub-bairros. Antes mesmo das facções surgirem, havia uma rivalidade nítida entre os moradores. Talvez histórica, mas sem explicação. Ainda quando muito jovem, ouvia os mais velhos falarem que gangues subiam o morro para disputar território, porém há muito tempo não acontecia algo do tipo.

Depois desses fatos ocorridos entre favelas da Zona Norte, os traficantes que adormeciam voltaram a chamar atenção e a guerra reiniciou. Eu, aqui da Vila Kennedy, presencio tudo de perto, imaginando o que está acontecendo perto desse morro, em meio a fortes rajadas de metralhadoras.

São 3h31m do dia 3 de novembro de 2009. A lua está linda e iluminando todo o território que consigo ver do terraço de casa. Acabo de ligar o computador. Mais uma vez, fui acordado pelo barulhos de tiros e ainda não recuperei o sono. Hoje as rajadas estão maiores do que na noite passada. Enquanto Bangu tenta dormir, os traficantes continuam disparando muitos e muitos tiros lá fora. Acho que a polícia está por lá também. Ouço tiros partindo da área da Avenida Brasil que certamente são dos policias e outros que vêm lá de cima do morro, dos traficantes. O barulho é ensurdecedor.

O bairro que antes era dominado pelo Comando Vermelho foi ocupado pelos policiais após a invasão da favela da Metral. A história é a seguinte: estava pegando mal para a polícia o fato de a favela ter proximidade com o complexo penitenciário de Bangu e traficantes conseguirem fazer tanto estardalhaço. A polícia invadiu a favela, tomou o poder e a facção perdeu força com o tempo. Os vizinhos, do Terceiro Comando ou, talvez, ADA (já nem sei mais quem é quem), percebendo que isso tinha acontecido, resolveram, por diversas vezes, invadir o bairro sabendo que iriam apenas conflitar com os policiais. E acho que é o que está acontecendo agora.

Há pouco, minha mãe veio ao meu quarto ver se eu estava dormindo. Pedi a ela voltar para seu quarto. Percebi que ela está nervosa com o tiroteio que come solto. Perdi o sono. Daqui a pouco, ao amanhecer, preciso sair. Hoje tenho prova na faculdade e, mais uma vez, não durmo. Ainda não sei se vou arriscar sair de casa. Imagino que muitos trabalhadores nem sairão.

No domingo, a mesma facção tentou invadir a Vila Kennedy em plena luz do dia. Cinco moradores se feriram. O meu medo é que isso possa acontecer novamente. Agora, basta rezar. Como sempre, estamos vulneráveis a essa guerra que parece não ter controle. Mais tarde, entrarei na internet para saber as notícias. Ao menos, espero que inocentes não estejam na lista de mortos e feridos. E a lua continua assistindo tudo de camarote.Este texto foi escrito por um leitor do Globo. Quer participar também e enviar sua notícia?